DESTAQUE LOW CARBON

Conversamos com Maurício Cótica, diretor executivo da SebigásCótica, para saber um pouco mais sobre o projeto de produção de biometano a partir de resíduos e subprodutos da cana-de-açúcar.




1. No que consiste o projeto de produção de biometano a partir de resíduos e subprodutos da cana-de-açúcar?

Maurício Cótica: O projeto visa produzir biometano por meio dos principais subprodutos da produção de etanol e açúcar, a vinhaça e a torta de filtro. A partir do processo de biodigestão anaeróbia, os subprodutos são decompostos por bactérias, que transformam a carga orgânica em biogás e, após procedimentos específicos, em biometano.

Esse biometano é um gás equivalente ao gás natural, podendo ser utilizado em uma infinidade de processos. No caso específico do projeto, enxergamos uma grande oportunidade para utilizar o biometano como combustível, substituindo o diesel na operação da usina de etanol e açúcar. O diesel é o principal custo das usinas, pois é consumido toda a cadeia, desde a colheita até o transporte da cana e do etanol. Desta forma, nosso foco foi desenvolver o biometano para utilização em caminhões de transporte. Neste processo, estamos reduzindo emissões de particulados oriundos da combustão a diesel. Além desse uso, consideramos vender também o biometano para a rede de gás natural.

2. Poderia mencionar um pouco do processo de produção?

Maurício Cótica: O biogás é composto por, em média, 53% de gás metano (CH4) e o restante são outros gases, em sua maior parte o CO2. Após o processo de limpeza, a desumidificação e a remoção de gás H2S (gás sulfídrico / enxofre), é realizado o processo de upgrading, no qual a concentração de CH4 é aumentada para padrões estabelecidos pela ANP para ser utilizado como biometano.

É importante ressaltar que a vinhaça é um efluente com grande potencial energético, em virtude de seus grandes volumes de produção. Para produzir um litro de etanol, as usinas de etanol e açúcar produzem em média 12 litros de vinhaça. Essa vinhaça é hoje aplicada no campo como fertirrigação, porém possuiu o pH ácido, o que prejudica o solo após a biodigestão. A vinhaça é estabilizada com pH neutro e carga orgânica reduzida.

3. Como foi possível a sinergia entre as duas instituições? Qual foi a contribuição de cada uma para tornar o projeto viável?

Maurício Cótica: A sinergia entre as empresas é natural, visto que atuam de forma complementar no processo. A Cótica, como parceira da Sebigas, age no processo de biodigestão, ou seja, no desenvolvimento da solução responsável pela produção do biogás. Já a Greenlane recebe o biogás produzido e faz o processo de upgrading para o biometano, entregando o produto final.

4. Qual foi o papel da Low Carbon Brazil na parceria da Greenlane Biogas com a SebigásCótica?

Maurício Cótica: O Low Carbon Brazil é uma peça fundamental na viabilização de estudos e de futuros projetos. A ação do Low Carbon auxilia e acelera o desenvolvimento do mercado de biogás no Brasil, buscando soluções práticas e aplicáveis para as necessidades, oportunidades e problemas que temos hoje.

5. Segundo a descrição do projeto, o Brasil é um grande produtor de cana-de-açúcar e o segundo maior produtor de etanol do mundo. Esse fator contribuiu para a aproximação da Greenlane Biogas com a Cotica? O que isso facilita ou que pode trazer de obstáculos?

Maurício Cótica: Além do tamanho do mercado no mundo, o setor de açúcar e etanol é o maior mercado potencial para produção de biogás e biometano do Brasil, ou seja, é possível produzir um alto volume de biometano com poucos projetos. Esta realidade é diferente do que há em outros países, onde a produção é de menor volume e pulverizada em vários locais.

6. Quanto isso representará em benefícios (mensuração do impacto) ao meio ambiente?

Maurício Cótica: O uso do biometano na substituição do diesel traz enormes ganhos para o meio ambiente, pois estamos reduzindo diretamente os gases do efeito estufa, por meio dos particulados que são emitidos na combustão do diesel. O biometano é único combustível com pegada negativa de carbono. Além disso, há outros ganhos, como a redução de ruídos dos motores (poluição sonora) e a melhoria da qualidade da vinhaça aplicada no campo, como citado anteriormente.

7. O custo do combustível será menor, igual ou superior ao hoje existente?

Maurício Cótica: Certamente menor. O custo de produção de 1m³ de biometano que é equivalente a um litro de diesel pode ser até 50% menor.




8. Em que tipo de veículos/motores o biogás poderá ser empregado? Em que motores?

Maurício Cótica: Por ser equivalente ao GNV (gás natural veicular), o biometano pode ser utilizado em qualquer motor convertido a gás. Além da conversão, também há motores 100% a gás em carros, ônibus, caminhões e tratores, que hoje já são realidade no Brasil.

9. Qual a proporção de eficiência do biogás em relação aos combustíveis hoje existes? Para gerar a mesma energia é preciso mais biogás do que com combustíveis tradicionais?

Maurício Cótica: O desempenho nos testes realizados demonstra uma equivalência de 1m³ de biometano para um litro de diesel.

10. Qual será o investimento necessário para colocar o projeto em execução? E em quanto tempo?

Maurício Cótica: O investimento total, já considerando a conversão dos caminhões, está na casa dos R$ 80 milhões. O tempo de implantação é de 12 a 18 meses.






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