Low Carbon Brazil Highlight


Um dos projetos que o Low Carbon destaca nesta newsletter, e que será realizado no interior de São Paulo, pretende construir uma fábrica de classificação de resíduos sólidos, onde seja possível receber esses resíduos, separar os materiais entre recicláveis e não recicláveis, e ao mesmo tempo produzir energia renovável para recarregar as baterias dos caminhões elétricos responsáveis pela coleta.
Confira abaixo a entrevista com Gabriel Hamuche e André Tchernobilsky, fundadores da ZEG Ambiental.

1. A ZEG entrou para a lista “100 Startups to Watch”, levantamento promovido pelas revistas Pequenas Empresas & Grandes Negócios e Época NEGÓCIOS, da Editora Globo. Conte-nos um pouco sobre a história da empresa e o que os levou a conquistar este espaço.
AT - O conceito da ZEG Ambiental nasceu em 2010, mas abrimos a empresa efetivamente em 2012. Tudo começou quando voltei ao Brasil após morar em Luxemburgo e trabalhar em uma empresa do setor automotivo, foi bem no período em estava sendo implementava a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Estudei este mercado e vi o quanto o Brasil era atrasado nessa área. Foi assim que surgiu a ZEG, com o propósito de acabar com o problema dos lixões no país.

O Gabriel passou a pesquisar o mercado brasileiro, enquanto eu fui buscar referências em outros países de tecnologias para gestão de resíduos e transformação de energia. Nesse processo descobrimos duas coisas fundamentais para criação da ZEG: 1 - Dos 5,6 mil municípios brasileiros, a metade possui lixões ou estão longe de aterros sanitários, e grande parte faz o descarte totalmente errado e sem escala para projetos de recuperação de resíduos. 2 - Os países que mais resolvem os problemas do lixo são aqueles que mais geram energia.

Então pensamos em desenvolver nossa própria tecnologia baseada em uma técnica francesa e em uma tendência internacional de modelo de negócios, projetos 3D: Descarbonização, Digitalização e eletrificação, e a Descentralização das soluções – (tratamento de resíduos e geração distribuída). Acabamos por implementar o 4º D, a Democratização dos recursos, para viabilizar operações, diminuir deslocamentos e taxas de aterro, desse modo os municípios pequenos com poucos recursos de orçamento conseguiriam investir em segurança, educação, saúde, desenvolvimento de cidades, geração de emprego e etc., além disso, todos os projetos da ZEG terão reciclagem, promovendo a economia circular. Acredito que passamos a despertar o interesse do mercado e de investidores, quando fizemos dois projetos em concursos de startups da Votorantim Metais e Citrosuco, e fazer parte deste ranking, de forma tão rápida, foi muito gratificante para nós.

2. Uma das unidades de negócios da ZEG, a ZEG Ambiental, desenvolveu uma nova tecnologia para geração de energia, uma revolução do sistema de pirólise. Pode nos explicar um pouco mais?

AT - Para atender as necessidades de saneamento do Brasil, cujos resíduos são gerados em municípios com menos de 100.000 habitantes, e por não ter tecnologia eficiente nessa escala, a ZEG se uniu a um cientista francês que havia desenvolvido um termodifusor altamente eficiente. Ele consegue trabalhar em temperaturas acima de 1.000 Cº. Com o conceito do núcleo do reator implementado, nós aportamos conhecimento de sistema automotivo para embarcar tecnologia de ponta em seus periféricos. Temos um núcleo eficiente com um sistema de automação com inteligência artificial e educação cognitiva, que possibilita que os reatores conversem entre eles e com a central de controle das plantas, sempre no intuito de melhorar performance e disponibilidade operacional.

O Sistema de desintegração instantânea de resíduos, funciona com ausência de ar, calor em altas temperaturas, em atmosfera redutora e em pressão negativa. Estaria dentro de uma matriz tecnológica de pirólise, mas consideramos ser uma evolução importante deste sistema. Não geramos qualquer tipo de óleo ou extratos de pirólise e alcatrão. Geramos um gás sintético limpo com alto poder calorífico.

Por ser altamente eficiente, recuperamos acima de 90% do poder calorífico superior dos resíduos, conseguimos compactar nosso reator em contêineres de 40´´, que conseguem atender mais de 96% dos municípios do Brasil com um só reator.

Para municípios muito grandes nosso objetivo seria o de substituir os transbordos de lixo com nossas usinas.

Nosso contêiner de engate rápido permite sua instalação em 10 dias, é como você conseguir implementar um aterro em cada município em 10 dias, fazendo o desvio da necessidade de aterramento aumentar em mais de 90%. Sobram somente cinzas inertes.

Portanto temos o “Estado da Arte” em recuperação energética em termos de flexibilidade, modularidade e com mobilidade.

3. Qual é a novidade tecnológica que lhes interessou na sua empresa parceira italiana Parini?

GH - A Parini é uma empresa com mais de 3 décadas de experiência implementando centrais de triagem automatizadas pelo mundo com tecnologia de ponta. Tem capacidade técnica de entregar plantas “turn-key” e fabricam todos componentes como: vibradores de alimentação, trommel, separador balístico e separadores a ar.



4. O que podemos aprender com os europeus em relação a gestão de resíduos?

GH - A Europa está 50 anos à frente do Brasil em relação a gestão de resíduos. Empresas sólidas, com tecnologia avançada estão neste setor há décadas. O Brasil está totalmente insipiente no trato de resíduos. Mais da metade do resíduo não é disposto adequadamente, e cerca de 10% nem coletado é. Em termos de regulamentação, as leis brasileiras praticamente usaram a europeia como base. O que falta agora é executar o que já existe em lei desde 2010.

O que tiramos da Europa é o aprendizado de que não há uma única solução. Existem particularidades de região a região, mas que Reciclar com Recuperação Energética será sempre a melhor solução ambiental e social.

Os países que mais geram energia de resíduos são os que mais valorizam os resíduos, que mais recuperam materiais reciclados e que mais praticam os 3 Rs (reciclar, reutilizar e reduzir). Atualmente, plantas de recuperação energética de resíduos na Europa conseguem suprir energia elétrica para quase 20 milhões de pessoas reduzindo consideravelmente emissões de GHG para atmosfera.

5. Como irá funcionar a fábrica, especificamente a parte de triagem dos resíduos?

AT - Estamos lançando em 2019 o que consideramos o projeto mais eficiente e avançado do mundo com relação aos resultados sociais, ambientais e econômico.

Iremos ajudar um município de pequeno porte (100.000 habitantes) a recuperar o máximo valor de seus resíduos com processo de triagem para materiais recicláveis com cooperativa local de catadores, geração de água limpa, pois tratamos a umidade dos resíduos antes de entrar no nosso reator, geração de energia elétrica ao mercado com nosso sistema FDS, coleta de resíduos em caminhões de lixo elétricos, estação de carga dos caminhões com energia do próprio lixo que coletam, e por fim, estamos desenvolvendo um sistema de captura de CO2 do gás de combustão de nosso sistema que fará sua devida separação e purificação para posteriormente ser adicionado em estufas para cultivo e consumo de hortifrúti para as comunidades carentes locais. Por fim sobrariam cerca de 5% de cinzas inertes que poderão ser incorporadas aos fornos de cimenteiras. Estamos perto de concretizar um sonho de ter praticamente 100% de desvio da necessidade de aterramento de lixo em um município.

Este modelo poderá ser replicado não somente no Brasil, mas em outros países de igual desafio geopolítico.

Chamamos esse projeto de Mini Ecoparque 4D:
1. Descarbonização do planeta
2. Descentralização da disposição do lixo – menos custo operacional com menos KM rodados de caminhões.
3. Digitalização / Eletrificação das coisas – caminhões elétricos abastecidos com o próprio lixo que coletam.
4. Democratização de Recursos – desenvolvimento social e econômico regional, com empregos mais qualificados, maior arrecadação de impostos, redução dos custos do município com gestão do lixo, redução do custo de energia do município, estufas para cultivar alimentos em comunidades do município. Apostamos que podemos ajudar na democratização de recursos para nossa sociedade, possibilitando ao município investir os ganhos em áreas mais essenciais tais como: educação, saúde, segurança, infraestrutura, etc.


6. Quais os principais impactos ambientais o projeto trará e os resultados esperados?

GH - Um dos principais impactos ambientais certamente é a redução da emissão de mais de 2t de gases causadores do efeito estufa. Mas o projeto irá oferecer um grande desenvolvimento socioeconômico dos municípios, promovendo economia circular, recuperação de 100% do lixo, geração de energia limpa, materiais recicláveis, inclusão social.

Outro ponto importante é que, por usarmos caminhões elétricos, estaremos também deixando de emitir gases poluentes, uma vez que são movidos a bateria, e elas são alimentadas com a energia gerada pelos resíduos. O caminhão de lixo é a máquina que mais emite CO2 do planeta, são 1,24 Kg de CO2 para cada KM rodado.

Não posso deixar de citar a recuperação de 25 mil toneladas por ano de resíduos sólidos urbanos e 8 toneladas de material reciclável.

7. Este projeto é destinado a indústria, ao sistema público ou privado? Quem são os principais clientes e expectativa de mercado?

GH - Até o final de 2019 já teremos nossa primeira usina em operação, e esperamos ter clientes em todos os setores, tanto público quanto privado. Nosso projeto é extremamente competitivo para pequena escala e média escala.

Podemos resolver o problema dos resíduos, gerando energia térmica e elétrica aos nossos clientes.

Nossa tecnologia, no fundo é um gerador de gás sintético que promove a substituição completa de combustíveis fósseis.

8. Porque escolheram o interior de São Paulo para começar o projeto? Qual é a escalabilidade do projeto em outros estados do Brasil ou até fora do país?

AT - São diversos fatores que contribuíram para o projeto começar no interior de São Paulo, o primeiro deles é que o Estado de São Paulo iniciou recentemente um movimento de extinção dos lixões, o que gera uma necessidade de apresentar uma solução viável. É também mais fácil realizar a logística dos materiais recicláveis fomentando a economia circular. É um estado com consórcios já implementados que facilita a implementação de nosso modelo de negócio descentralizado. Os parceiros também foram fundamentais nessa escolha.

9. Para finalizar, como enxerga o Low Carbon Brazil, iniciativa da UE? Pode-se dizer que foi algo fundamental para o seu projeto sair do papel?

GH - O Low Carbon foi crucial para essa troca de conhecimento técnico e viabilização dos projetos. A ZEG, que dizer “Zero Emission Generation”, está totalmente alinhada ao discurso e ações da UE, nascemos com o propósito produzir e gerar energia limpa. Inclusive acho que deveriam continuar com o projeto, para que outros setores de baixo carbono também sejam beneficiados com novas soluções contra as mudanças climáticas.



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