DESTAQUE LOW CARBON

O Low Carbon Brazil conversou com o doutor e biólogo Julio Ximenes, da PISCIS, e com Anton Rossbach, CEO da empresa alemã GLOASIS GmbH. Juntos em um projeto que irá beneficiar grande parte do estado do Ceará, em relação a produção de alimentos e geração de empregos.




1. A Piscis atua na região do Castanhão/Jaguaribara desde 2009. Conte-nos um pouco sobre a Piscis e como está a situação da região desde 2009 até hoje em relação a produção do pescado?
Julio Ximenes: A PISCIS iniciou suas atividades em 2009, de forma ainda muito incipiente, atuando na produção de óleo a partir das vísceras de tilápia. Nesta época, a empresa apresentava uma produção ainda muito pequena, no entanto, a partir daquele ano, a produção de tilápia no açude Castanhão foi sendo intensificada anualmente, assim como a produção de óleo da PISCIS.

Em 2012, a produção de tilápia no Castanhão atingiu o ápice da produção, se tornando a maior produtora de tilápia no Brasil, e fazendo com que o Ceará se tornasse o Estado brasileiro com a maior produção do país. Porém, ao mesmo tempo, a partir de 2012 iniciou-se o período de seca que atingiu o Ceará por aproximadamente 6 anos.

Ao longo destes anos, a produção intensificou, mas a partir de 2017 os produtores passaram a sentir esta escassez de água, quando o volume de tilápia produzido diminuiu drasticamente. Inclusive, nos anos de 2016, 2017 e, novamente, em 2019 ocorreram eventos na qualidade da água do Castanhão que levou a mortalidade de mais 100 toneladas de pescado em cada um destes eventos. Atualmente, a produção está praticamente finalizada no Castanhão, pois apresenta menos de 5% da sua capacidade de água e já opera praticamente dentro do volume morto do açude.

2. Em 2012 vocês identificaram uma solução para o volume de resíduos derivados das vísceras dos peixes. Mas hoje as necessidades são outras, pode nos explicar o que a região necessita hoje?

Julio Ximenes: A partir de 2009 a empresa já tinha uma solução para os resíduos das vísceras, mas a partir de 2012, com a intensificação da produção a empresa precisou se adaptar. Neste ano, a empresa transferiu sua sede do centro de Jaguaribara para a zona rural, onde teria mais espaço para trabalhar. Além disso, aprovou seu primeiro projeto de pesquisa, no qual adaptou um caminhão com um sistema de sucção de vísceras. Estas medidas foram tomadas para que a empresa fosse capaz de atender de forma mais eficiente as demandas dos produtores que necessitavam se livrar das vísceras provenientes do beneficiamento do pescado.

Atualmente, a região necessita voltar a produzir pescado, pois vale ressaltar que, nestes 10 anos de produção intensiva, a cidade de Jaguaribara se adaptou à produção de pescado, no qual foram instaladas diversas empresas de ração, comércio com produtos voltados à produção, além da mão de obra de trabalho que se especializou na produção de tilápia. No entanto, esta produção deve ser mais sustentável e menos dependente de água, sendo necessário trabalhar com a reuso ou recirculação desta água, no qual é possível realizar a produção, fazer o tratamento da água e retorná-la à produção sem perdas.

3. Em decorrência da situação atual do açude do Castanhão vocês procuraram empresas estrangeiras como a europeia Gloasis. O que vocês viram na Gloasis durante a rodadas de negócios promovida pela Low Carbon Brazil para o desenvolvimento do projeto de produção de tilápia e camarão em um sistema sustentável com fontes renováveis de energia?

Julio Ximenes: A empresa Gloasis possui uma proposta inovadora de integrar as produções de tilápia, camarão e aquaponia em um sistema sustentável ambiental e econômico e, principalmente, para a nossa região, que utiliza, recircula e renova a água sem perdê-la. Esta característica é imprescindível para a nossa região, pois já sofre com a seca há 6 anos.

4. E o que podemos esperar do projeto em parceria com a Gloasis. A dessalinização é algo considerável?

Julio Ximenes: O projeto proposto não se trata, exclusivamente, de uma usina de dessalinização. Na verdade, o processo de dessalinização é uma parte importante do projeto, porém o grande objetivo é integrar a produção de tilápia, camarão e hortaliças (através da aquaponia) em um conceito de economia circular, no qual os rejeitos (resíduos) da produção de tilápia, uma parte são reaproveitados na aquaponia (produção de hortaliças) e a outra parte são utilizados na formação de flocos para produzir camarão e servem para diminuir os custos com ração. Além disso, o processo de evaporação da água (processo completamente normal em uma produção aquícola) é utilizado para resfriar as hortaliças e, posteriormente, é condensado, caracterizando a dessalinização, no qual essa água pode ser reutilizada na produção de tilápia.




5. Conte-nos sobre a Gloasis e há quanto tempo ela trabalha no segmento de fazendas aquáticas, oferecendo soluções para produção, dessalinização e geração de energia.

Anton Rossbach: A Gloasis GmbH foi fundada em 2016 para explorar o conhecimento de pesquisa e desenvolvimento na Universidade Técnica de Berlim, no campo de estufas do deserto, com foco comercial e em energias renováveis. Nosso grande objetivo é produzir água doce, alimentos e energia de forma sustentável e rentável.

6. A dessalinização é uma das etapas dentro do processo de produção de peixes e camarões. O que torna a usina e metodologia da Gloasis diferente das demais? Conte-nos um pouco mais sobre o processo e sobre a economia gerada.

Anton Rossbach: Nossas plantas não são realmente comparáveis às usinas de dessalinização convencionais. Considerando o módulo de efeito estufa, por exemplo: Uma estufa precisa de cerca de 8 litros de água por m³ por dia, três destes são assimilados pelas plantas junto com CO² usando energia solar e convertidos em glicose / biomassa, o que todos nós conhecemos como fotossíntese. No entanto, cinco litros da água de irrigação são evaporados pelas plantas para se arrefecerem. Isso equivale a 50 m³ por hectare de superfície de estufa com essas plantas.

Normalmente, esses 50 m³ por hectare + resfriamento evaporativo por máquinas são ventilados para fora das janelas para liberar o calor e obter ar seco para permitir que as plantas continuem a transpirar / evaporar mais água no ar para seu resfriamento. Em nosso processo, não recuperamos apenas a água evaporada, mas também aceleramos enormemente o crescimento das plantas pela fertilização com CO², com o CO² produzido pelos animais.



Nos módulos de peixe e camarão, por outro lado, temos a seguinte situação: Os peixes vivem em sua água e consomem o oxigênio de seu ambiente. Quando cultivamos em baixas densidades, como em um lago natural, isso não é problema. Aqui, o oxigênio suficiente recarrega naturalmente do ar através da superfície da água. No entanto, quando cultivamos intensivamente os animais, o que significa que, em alta densidade, como em um enxame de peixes, precisamos de uma aeração extra. Este é um processo intensivo de energia, porque você tem que bombear ar ou oxigênio puro para a água ou você tem que bombear a água para o ar como em uma cascata para saturá-lo com o oxigênio.

A segunda opção é menos intensiva em energia, mas acompanhada por uma alta taxa de evaporação. Portanto, esta opção geralmente não é aplicada em regiões frias, como a minha Alemanha, porque esfria a água e leva a uma demanda no aquecimento dos aquários. Isso pode exceder a economia de eletricidade em comparação com a opção "bombeando ar para a água". Em regiões quentes, este método de economia de energia de aeração da água pode ser aplicado, se a água a evaporar for abundante ou se a água evaporada puder ser recuperada. A energia de resfriamento por evaporação produzida pode até ser uma vantagem, quando a água precisa ser resfriada, ou quando há mais um processo de produção a ser resfriado, como a produção de energia solar ou a horticultura em estufa.

Na Gloasis, as mesmas instalações que fornecem grandes partes da aeração para os peixes, também fornecem a energia de resfriamento para as estufas. Assim, podemos usar a energia mais eficiente de aeração e até usá-la como subsídio para as almofadas de resfriamento da ventoinha. Isso economiza custos de instalação e operação em comparação com a produção de aquicultura solitária ou de horticultura solitária.



7. Falando sobre a energia usada para executar todo o processo gerado. Esta solução está totalmente desconectada da rede de distribuição de energia (fora da rede)?

Anton Rossbach: Nossas usinas de fazendas aquáticas são perfeitamente adequadas para Co-Siting com projetos de energia solar, porque podemos até aumentar sua eficiência fornecendo energia de resfriamento. O efeito positivo é que quanto mais energia de resfriamento temos para fornecer, mais energia de resfriamento por evaporação (água) temos para produzir, e possível dessalinizar mais água quando aplicamos a aquicultura em água do mar.

Assim, a planta pode ser projetada completamente desconectada. No entanto, os agricultores que querem instalar uma de nossas usinas, também podem considerar produzir a energia para a rede, por meio da policultura de peixes e vegetais. Além disso, eles naturalmente se beneficiam da produção independente do clima, devido à água e ar condicionado dentro da fábrica.

8. Quanto tempo você estima que levará para o projeto e usina em parceria com a Piscis entrar em operação?

Anton Rossbach: O projeto tem progredido sucessivamente desde a nossa primeira reunião na fase inicial durante a rodada de negócios, organizada pelo Low Carbon Brazil e estamos adaptando os processos de produção às exigências do mercado brasileiro.

O Nordeste é muito rico em sol, e o povo brasileiro gosta de comer peixe, muito mais do que os europeus. Isso acaba mudando muito o processo de produção e o tempo, porque cultivamos os seres vivos e queremos e temos que oferecer as melhores e mais saudáveis condições de crescimento em cada etapa de suas vidas.

Quando o financiamento do projeto estiver assegurado, precisaremos de cerca de 9 meses para as construções e depois de mais alguns meses até que possamos colher as primeiras plantas e capturar os primeiros camarões e peixes.

9. Como os resultados da usina serão medidos em termos de emprego, economia, geração de energia, água limpa produzida na região?

Anton Rossbach: Neste ponto deve ser mencionado que hoje a agricultura, com 70%, é o maior consumidor de água do mundo. Gloasis oferece uma solução para a agricultura produtora de água. A planta de demonstração criará 36 empregos de longo prazo na fazenda, desde o manejo ao cultivo, passando pela embalagem e segurança. O prazo de amortização é de cerca de quatro anos. A eletricidade será produzida por painéis fotovoltaicos durante o dia e à noite, quando a eletricidade da rede custa essencialmente menos, para economizar os custos de investimento das baterias.

Vamos economizar ainda mais energia em aquicultura e horticultura, usando o resfriamento por evaporação das estufas também para partes da energia de aeração intensiva dos tanques de peixes. A planta de demonstração não tem conexão com o mar. Vamos recircular a água dos tanques de peixes após o tratamento, e usar para irrigação de efeito estufa, assim como reciclaremos a água evaporada. Assim, usaremos 80% a 90% menos água do que a horticultura convencional em estufa, usando a recirculação da aquicultura.





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