DESTAQUE LOW CARBON

O Low Carbon Brasil conversou com João Sousa, CEO da Prewind no Brasil, e Shirley Damasceno, da Energo, partner europeu e brasileiro do projeto deste destaque, para entender um pouco mais sobre o cenário atual da energia eólica, e como o projeto apoiado pela União Europeia pode auxiliar o Brasil na obtenção de energia elétrica com fonte renovável.


Entrevista com João Sousa:

1. Dentro do plano de negócios apresentado, vocês informam que sua ferramenta permitirá otimizar o planejamento da operação e ações de manutenção no setor eólico . Vocês poderiam nos descrever como funciona a ferramenta, e como será realizada esta otimização na prática?

João Sousa: A nossa ferramenta permite otimizar o planejamento das ações de operação manutenção, dado que, de acordo com a informação da previsão das condições meteorológicas e a previsão da quantidade de geração de energia, o usuário pode escolher o período ou a janela temporal que minimiza a perda de geração de energia, ao mesmo tempo que, seleciona a janela temporal que satisfaz as condições ideais para a realização da manutenção (como por exemplo: necessidade de um período de tempo de 4 horas, sem estar chovendo e durante o dia de trabalho)

2. Vocês apontaram para a equipe da Low Carbon Brazil, dentro do seu plano de negócios, que esta ferramenta será adaptada de acordo com as exigências do mercado livre de distribuição de energia do Brasil. Vocês poderiam nos descrever melhor sobre quais tipos de adaptação serão necessários?

João Sousa: Apesar da Prewind na Europa deter uma ampla experiência, a verdade é que as características do mercado brasileiro são diferentes dos outros. O funcionamento do mercado livre e, inclusive, a regulamentação da venda de energia é bastante específica, logo é normal que as ferramentas de previsão sejam adaptadas às realidades do mercado. Neste caso, além da adaptação operacional dos modelos meteorológicos e dos modelos de previsão (estes de acordo com a sazonalidade e o clima local) é necessário proceder ao desenvolvimento de uma camada superior, que permita auxiliar o operador em relação às tomadas de decisão na participação em regime de mercado, neste caso do mercado livre.

3. Quais os são desde o seu ponto de vista os principais desafios do setor de geração de energia eólica no Brasil e quais as contribuições da tecnologia da Prewind?

João Sousa: O Brasil tem evoluindo bastante ao nível da capacidade instalada em centrais eletro produtoras, como por exemplo, os parques eólicos, mas só agora começa a ser evidente a necessidade de ferramentas como a proposta pela Prewind.

Na verdade os sistemas de previsão, além de beneficiarem os operadores em relação à otimização da geração por conta do planejamento das ações de O&M, e de permitirem um forte ganho em regime de mercado (venda de energia), também permitem uma maior taxa de penetração das fontes de energia renovável, como o vento e o sol, nas redes elétricas, dado que se consegue conhecer antecipadamente a sua evolução. Desta forma, é possível escalonar as centrais de reserva de uma forma otimizada, da mesma forma que se conhece antecipadamente o trânsito de potência nas linhas elétricas, sendo possível antecipar determinados regimes de funcionamento (gestão das redes elétricas do ponto de vista da condução da rede, otimização dos serviços auxiliares, etc.)

4. De acordo com o último balanço da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABBEólica) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), em março de 2019, os ventos brasileiros – em especial os do Nordeste – possibilitaram quebrar um recorde, com produção superior a 15 gigawatts (GW) de energia elétrica, o que tornou o setor eólico a segunda principal fonte de energia do país. Em sua opinião, quais são os desafios e as oportunidades dos próximos anos para o crescimento da participação da energia eólica na matriz energética Brasileira?

João Sousa: O Brasil tem apresentado uma taxa de crescimento muito interessante em relação à capacidade instalada em energia eólica. Penso que no futuro o recorde será novamente quebrado, dado que a tendência é para aumentar a capacidade geradora em energia eólica, conforme o resultado dos leilões dos últimos anos. Sendo assim, a energia eólica posiciona-se como um novo setor da economia brasileira. Na minha opinião, o Brasil terá um conjunto de desafios e oportunidades nos próximos anos, que passaram pela gestão otimizada das usinas, pela otimização da tecnologia e pelo desenvolvimentos de novas ferramentas de controlo e monitorização das usinas e rede. Até aqui, a energia eólica era absorvida pela rede elétrica sem qualquer impacto, mas para garantir o bom funcionamento da rede e atendendo à importância que a energia eólica tem na matriz de energia, será necessário modernizar os sistemas de controle das redes de transmissão e distribuição, além dos sistemas de monitorização das usinas e aerogeradores que permitirão atingir melhores taxas de desempenho.

5. Para seu o negócio, qual foi a grande contribuição da iniciativa da União Europeia, Low Carbon Brazil?

João Sousa: No nosso caso, apesar de já termos identificado o Brasil como mercado, o programa permitiu consolidar a nossa ideia e alavancou a entrada no mercado, através do estabelecimento de parcerias que estão a dar os seus resultados. Hoje, estamos a operar no mercado brasileiro com resultados interessantes e esperançados em sedimentar a nossa posição, contribuindo para a proliferação das fontes de energia renovável variáveis na matriz energética. Em suma, estamos contribuindo para o aumento da geração renovável que contribuem diretamente para a redução das emissões de carbono.




Shirley Damasceno:

1. Atualmente, quais são os setores em que a Energo está focada?

Shirley Damasceno: Sim, participamos do desenvolvimento inicial do primeiro projeto de geração solar no Brasil, o projeto da usina solar fotovoltaica de Tauá, no estado do Ceará, implantado pela empresa MPX energia.

Somos uma empresa de engenharia e desenvolvemos projeto de geração solar e eólica com abrangência para o mercado brasileiro.

2. Vocês conheceram a empresa Prewind durante as rodadas de negócios promovidas pelo projeto europeu Low Carbon Brazil. Como surgiu a ideia de desenvolver um sistema de previsão de geração de energia eólica adaptado para o mercado brasileiro?

Shirley Damasceno: Conhecemos a Prewind através do projeto Low Carbon Brazil, e identificamos a oportunidade de negócio de desenvolvermos um sistema de previsão de vento e de geração eólica para o crescente mercado brasileiro. As condições climáticas brasileiras e, especialmente da região nordeste, pela proximidade do equador e características de constância e intensidade dos ventos, exige o conhecimento prévio da variação do vento permitindo a programação prévia de operações de implantação de parques, de operação e manutenção e principalmente na programação de produção e venda de energia.

3. Como vocês enxergam o impacto desta parceria na estratégia de crescimento da Energo dentro do setor eólico no Brasil?

Shirley Damasceno: Primeiro pela experiência da Prewind no mercado europeu e o seu conhecimento e a percepção de busca por mercados novos, e com necessidades de adequações, como no nosso caso do nordeste brasileiro, e características específicas do vento dessa região. A parceria com a Prewind permitirá vencer as etapas iniciais de adequação do sistema e já nos permitir alcançar de forma mais rápida o mercado brasileiro.

4. Quem serão os principais clientes da parceria Prewind/Energo? Em quais setores e regiões irão focar a comercialização?

Shirley Damasceno: Os grandes players de geração eólica no mercado brasileiro detêm participação forte na região nordeste, que contempla mais de 80% de toda capacidade instalada brasileira, hoje de 15GW, e previsão de alcançar 25GW nos próximos 5 anos. O mercado brasileiro é bastante recente contratado em regime de leilões públicos promovidos pelo governo federal para suprimento do mercado cativo de energia distribuído pelas concessionárias de distribuição.

Os principais clientes de geração eólica são CPFL, Ômega Energia, Queiroz Galvão Energia, Votorantin Energia, Alupar, Brennand Energia, Rio Energy, entre outras.

Além da geração eólica, o sistema Prewind pode atender também a geração solar fotovoltaica e pequenas centrais hidrelétricas (PCH’s), essas também com tendências de crescimento no mercado brasileiro.

Nosso foco será a região nordeste, onde as características de vento e o potencial de geração eólica são bastante diferenciados. A inserção da geração eólica na matriz elétrica brasileira deslocará fortemente a geração fóssil contribuindo com a redução de emissões e seus impactos ambientais.

Outro nicho de mercado que consideramos é a previsão de geração para as empresas comercializadoras de energia, e para o próprio operador do sistema elétrico brasileiro (SIN).




5. Os projetos apoiados pelo Low Carbon Brazil se encontram na fase de avaliação das reduções dos impactos ambientais. Vocês já fizeram a sua estimativa? Quais são os resultados esperados?

Shirley Damasceno: Ainda estamos calculando todos os indicadores mas, certamente, o principal resultado esperado pela utilização do sistema de previsão de vento é uma melhor performance de geração eólica gerando mais energia, melhores resultados para o cliente maior redução dos impactos ambientais pela substituição da geração fóssil pela eólica.

6. De acordo com a visão da Energo, quais serão os principais desafios que o setor de energia renovável no Brasil vai ter que enfrentar nos próximos anos para obter uma participação maior na matriz energética Brasileira?

Shirley Damasceno: Pelas condições hidrológicas desfavoráveis da região nordeste, implicando na necessidade de contratação de geração termelétrica, mas com a crescente inserção de geração eólica com suas características naturais de variabilidade e intermitência, a otimização da produção de energia eólica e o crescimento de sua participação na matriz brasileira depende fundamentalmente de uma modelagem da operação do sistema elétrico pelo operador com uso de tecnologia e inteligência, permitindo que a escala de geração eólica atenue suas intermitências pela inércia virtual.





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